“Enquanto elas dormem…” é uma crônica escrita, com inteligência e delicadeza, por quem observa minha vida de atleta de perto: Lucia Telles, minha mulher.

 

As três dormem. Piso leve pra madrugada não atravessar o sono delas. Ainda a madrugada me chamando pra mais uma vez, como tem sido em tantos anos, ver a luz se fazer. A meia, o tênis, a bermuda, os incontáveis bolsos nas costas, o boné. Cuido da provável sede, fome, encho garrafas com todos os pós que inventaram em forma de alimento, hidratação… Alma alimentada, confiante. Preso no corpo um número que agora me identifica, a essa altura, do um ao mil, já fui uma porção de combinações, todas penduradas na parede de cortiça, uma espécie de altar com os louros dessa caminhada que se inicia pelas incontáveis madrugadas. Chamo um táxi. Aguardo na mureta do prédio tomado pela conhecida sensação de frio na espinha, silêncio, ansiedade, segurança e insegurança dançando juntas em um corpo de baile esquizofrênico, mas que me faz bem, me revigora. Parto pra batalha. Deixo as três dormindo.

O caminho é de silêncio, a cidade acordando de um sábado qualquer, a luz do sol que promete, aquele sopro frio do fim da noite, o silêncio do corpo que sabe que será exigido, se preparando. Agora já não piso mais tão leve, a chegada me desperta para o que virá, um mar de gente na correnteza ansiosa, barulhenta, enérgica. Passam os cremes contra o sol, o sal, ajustam cadarços, óculos, bonés, uma parafernália simples que auxilia na ansiedade, na confiança, fazer uma boa prova. Largo cedo e antes mando mensagem reivindicando a presença das três na chegada, nenhuma resposta, ainda dormem por trás da mureta do prédio.

O começo é tão feliz, tão maluco… Adrenalina de criança, como um brinquedo recém alimentado com pilhas, saio forte, agora pisando firme, um passo após o outro numa mecânica ainda bem organizada, olho em volta, sem ver muito o que está em volta, agora é olho pra frente, com o olhar pra dentro.

A cada quilômetro uma imagem da cidade que conheço e não conheço. Árvores, avenidas, pessoas, cachorros, casas que já vi e não vi, um cenário pros pensamentos que correm soltos, chamando os músculos e nervos pra correrem também. A maratona mental é capitã da embarcação que leva o corpo, se ela navega fluente e tranquila chegamos ao cais. Isso eu já sei, busco essa navegação.

Ouço de canto as conversas, as risadas, os suspiros. Reparo nas cabeças altas, baixas, nas cores das roupas, nos dizeres dos uniformes, no ritmo de quem vai passando ao lado, de quem vai ficando, em minha respiração que aumenta a frequência, em meus poros que começam a trabalhar, o corpo molhando, esquentando. Bebo o líquido que me oferecem, fico grato, como se fosse uma ceia servida a um combatente, aceito todos os líquidos que me oferecem com essa mesma gratidão. Aos poucos percebo que ganho um ritmo excelente, que estou bem, que as pernas querem seguir, que o coração trabalha corajoso e passo pra segunda parte satisfeito e orgulhoso, a cidade já se exibe com o sol a pino, sigo prestando atenção nas cores, vozes, pessoas, cachorros.

Penso nas três, que já devem estar acordadas, e o coração trabalha feliz com esse pensamento. Não olho o relógio, não preciso saber pela máquina o que sei internamente: estou forte, estou bem!

Os amigos que passam, apoio recíproco, os conhecidos acenando, refaço as ligações com cada um, quem são, que provas fazem e fizeram. Penso na minha prova meta, ganho mais força, vontade de acelerar, seguro, lembro do técnico pedindo constância e não explosão. Penso na prova meta e me dou conta que não fiz nem um terço dela ainda. Segurança e insegurança se anunciam novamente, mas o coração, o pulmão e as pernas seguem corajosos, confiantes.

Percebo que estou na segunda parte mais forte do que estava na primeira, sensação nova, revigorante, reenergizante. Sigo aceitando as ceias oferecidas, grato.

Não penso em quilômetros deixados, nem nos que faltam. Deixo a cabeça livre, voar, e mantenho os pés fincados ao chão da cidade, no asfalto irregular.

Nos últimos quilômetros a grata surpresa do amigo presente, lado a lado, me transporta pra assuntos que me confortam, os treinos, as provas, as metas. Conversa leve, solta e vou que vou, como se estivesse começando, sem a noia do cansaço final, do medo de não ver a borda. Vou que vou.

O pórtico se anuncia e sinto que ali tenho um recorde, superação das próprias vivências, experiências. Sinto que estou vencendo a mim mesmo, que posso e poderei chegar à borda com todas as forças do mundo. Passo, sorrindo, satisfeito e ouço meu nome, na voz conhecida, relaxo. Elas estão lá, surpresas também, felizes.

Tudo feito, ganho. Agora só quero descansar pra próxima, com uma força e vitalidade inexplicáveis. Agora só quero voltar, e antes da madrugada ver as três dormindo novamente.WhatsApp Image 2017-08-08 at 12.21.59