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Florianópolis, 2012. Acordo às quatro e meia da manhã, arrumo minhas coisas e caminho em direção à praia. O sol começava a nascer no horizonte. Seguia com medo porque sabia que estava remando contra a maré ao tomar a decisão de participar pela primeira vez do Ironman onze meses antes. Meu treinador, por exemplo, achava que precisaria do dobro de tempo de treinamento. Para complicar a situação, nunca tinha pedalado e muito menos corrido mais de 5 km. Em compensação, contava com o suporte da família: mãe, esposa e filha de 1 ano e cinco meses estavam presentes.

A primeira prova, 3,8 km de natação, não seria parâmetro para o resto da competição. Afinal, natação era o meu forte. E foi o que aconteceu, saí do mar entre os 20 melhores nadadores, junto com o atleta que foi campeão do Ironman. Animado por ter nadado bem, corri para pegar a bike e percorrer 180 km.

Naquele momento, aconteceu um fato engraçado. Peguei a sapatilha que estava na bicicleta e só naquela hora, olhando para os competidores a minha volta, percebi que não sabia colocar o calçado com a bicicleta em movimento. Com muita calma, sentei no meio fio e coloquei a sapatilha. As pessoas me olharam sem entender nada.

No início, me sentia tranquilo e achei que a prova estava sob controle. Depois de 150 quilômetros, a situação mudou, não estava aguentando mais pedalar. O vento e o calor foram minando minhas forças. Começou, então, uma negociação com a minha mente. Ela me dizia para parar, enquanto eu só pensava em continuar e cruzar o pórtico de chegada. Aprendi depois que essa negociação faz parte de todas as provas de longa distância, que são muito mais mentais do que físicas. E ela durou até o final.

Depois vieram as cãibras . A vontade era colocar os pés no chão e sair correndo. Mas segui em frente e entreguei a bike 40 minutos depois do planejado. A sensação de cansaço era enorme.

Faltava a última prova, 42 km de corrida. Depois de 14 quilômetros, passei a caminhar para descansar um pouco. Quatro quilômetros mais tarde, senti muitas cãibras e enjoo forte. Naquele momento, pensei em largar tudo. Porém, o acaso aconteceu. Como o hotel que escolhi ficava longe, quando já estava administrando a frustração de não conseguir atingir o objetivo, vejo minha família dentro de um taxi gritando: “Vai Renato, você está bem, falta pouco”. Fiquei muito emocionado. Depois, levantei a cabeça e pensei: “Eu não vou desistir, nem que eu saia daqui carregado”. Consegui voltar a correr, alternando com alguns momentos de caminhada.

Depois de 13h53’53’’, cruzei a linha de chegada. Um dos momentos mais lindos e felizes da minha vida, que dividi com minha esposa e filha. A concretização de um desafio que para muitos parecia impossível, mas que consegui realizar com o apoio das pessoas certas.

Fiquei um pouco decepcionado por não ter feito um tempo melhor, pois tinha treinado para isso. Mas não levei em conta que o corpo precisava ter marcas para conseguir colocar em prática o que fiz nos treinos.

Foi uma experiência inesquecível. Além de todo aprendizado e autoconhecimento, descobri que ter uma família que te ama e apoia, pode levar você a lugares nunca antes sonhados.

 

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