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Além do Ultraman

mês

março 2017

O primeiro Ironman

2017-03-20 21.59.59

Florianópolis, 2012. Acordo às quatro e meia da manhã, arrumo minhas coisas e caminho em direção à praia. O sol começava a nascer no horizonte. Seguia com medo porque sabia que estava remando contra a maré ao tomar a decisão de participar pela primeira vez do Ironman onze meses antes. Meu treinador, por exemplo, achava que precisaria do dobro de tempo de treinamento. Para complicar a situação, nunca tinha pedalado e muito menos corrido mais de 5 km. Em compensação, contava com o suporte da família: mãe, esposa e filha de 1 ano e cinco meses estavam presentes.

A primeira prova, 3,8 km de natação, não seria parâmetro para o resto da competição. Afinal, natação era o meu forte. E foi o que aconteceu, saí do mar entre os 20 melhores nadadores, junto com o atleta que foi campeão do Ironman. Animado por ter nadado bem, corri para pegar a bike e percorrer 180 km.

Naquele momento, aconteceu um fato engraçado. Peguei a sapatilha que estava na bicicleta e só naquela hora, olhando para os competidores a minha volta, percebi que não sabia colocar o calçado com a bicicleta em movimento. Com muita calma, sentei no meio fio e coloquei a sapatilha. As pessoas me olharam sem entender nada.

No início, me sentia tranquilo e achei que a prova estava sob controle. Depois de 150 quilômetros, a situação mudou, não estava aguentando mais pedalar. O vento e o calor foram minando minhas forças. Começou, então, uma negociação com a minha mente. Ela me dizia para parar, enquanto eu só pensava em continuar e cruzar o pórtico de chegada. Aprendi depois que essa negociação faz parte de todas as provas de longa distância, que são muito mais mentais do que físicas. E ela durou até o final.

Depois vieram as cãibras . A vontade era colocar os pés no chão e sair correndo. Mas segui em frente e entreguei a bike 40 minutos depois do planejado. A sensação de cansaço era enorme.

Faltava a última prova, 42 km de corrida. Depois de 14 quilômetros, passei a caminhar para descansar um pouco. Quatro quilômetros mais tarde, senti muitas cãibras e enjoo forte. Naquele momento, pensei em largar tudo. Porém, o acaso aconteceu. Como o hotel que escolhi ficava longe, quando já estava administrando a frustração de não conseguir atingir o objetivo, vejo minha família dentro de um taxi gritando: “Vai Renato, você está bem, falta pouco”. Fiquei muito emocionado. Depois, levantei a cabeça e pensei: “Eu não vou desistir, nem que eu saia daqui carregado”. Consegui voltar a correr, alternando com alguns momentos de caminhada.

Depois de 13h53’53’’, cruzei a linha de chegada. Um dos momentos mais lindos e felizes da minha vida, que dividi com minha esposa e filha. A concretização de um desafio que para muitos parecia impossível, mas que consegui realizar com o apoio das pessoas certas.

Fiquei um pouco decepcionado por não ter feito um tempo melhor, pois tinha treinado para isso. Mas não levei em conta que o corpo precisava ter marcas para conseguir colocar em prática o que fiz nos treinos.

Foi uma experiência inesquecível. Além de todo aprendizado e autoconhecimento, descobri que ter uma família que te ama e apoia, pode levar você a lugares nunca antes sonhados.

 

A jornada

Largada – fevereiro de 2017
Caminho – 1 ano e três meses de treinamento
Chegada – abril de 2018

Que os super-heróis permaneçam nas telas do cinema ou nas páginas dos quadrinhos. Que os atletas profissionais continuem brilhando nas pistas, quadras, piscinas… Este é o espaço do homem comum. E de seus sonhos.
Renato Amante, 32 anos, professor e empresário, lançou um desafio para seu corpo e sua mente. Completar a prova de Ultraman e documentar essa trajetória. Um feito para poucos: 10 km de natação, 421 km de ciclismo e 84,4 km de corrida. Em três dias de prova.
Renato acredita que o trabalho do atleta é transformar em força, movimento e vibração tudo aquilo que o corpo absorve. Foi assim desde pequeno, ao descobrir o esporte aos quatro anos de idade para tratar uma asma crônica e depois fazer dele sua profissão. Entre esses dois fatos, um longo caminho foi percorrido.
A natação começa como remédio e brincadeira, mas o menino logo descobre a seriedade dos treinos. Aos oito anos já compete em provas de pré-mirim, cruzando as piscinas em seu estilo favorito, o borboleta.
Adolescente, por influência dos irmãos mais velhos, passa a jogar polo aquático. A mudança para um esporte coletivo exige novo aprendizado. Renato compete pelo Clube Pinheiros e, mais tarde, pelo Paulistano, participando de campeonatos paulistas, brasileiros e interfederativos até 2010.
Na hora de escolher a profissão, opta por estudar Organização e Gestão de Evento. Nos próximos seis anos, monta bar e restaurante em festas pela cidade. Depois de uma passagem pela cidade de Barcelona, volta para casa decidido a se dedicar integralmente ao esporte. Faz faculdade de Educação Física e se torna professor.
Hoje, Renato é um dos sócios do Rac Estúdio, um estúdio  de alto nível que oferece aulas de Pilates e de treinamento funcional.
Sair do lugar comum, possível e confortável para buscar uma experiência de superação e introspecção, foi o que o levou a competir, a partir de 2011, em provas de triatlo. Hoje, contabiliza em seu currículo sete Ironman 70.3 e oito Ironman. Além de cinco maratonas. Passaporte fundamental para participar do primeiro Ultraman.
Para alcançar esse sonho aparentemente impossível é necessária a construção de uma jornada que o torne possível. A partida foi dada em fevereiro de 2017. Desafio. Suor. Dedicação. Foco. Disciplina. Comprometimento. Persistência. Superação. Conquista. São as palavras de ordem.
Do início ao fim, essa jornada traz apenas uma certeza, ela será transformadora.

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